segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O fim da homogeneidade

A esquerda radical nacionalista e independentista basca, que sempre constituiu uma das grandes estruturas de apoio da ETA, começa a dar os primeiros sinais de divergência com esta organização. Até há pouco tempo, os radicais actuavam de forma muito coesa, nunca tendo havido qualquer condena ou crítica à dinâmica de violência etarra. Isto leva muitos a crer que estamos perante algo de verdadeiramente novo.
A ETA está mesmo debilitada. Mais debilitada do que nas vésperas de qualquer dos outros processos negociais. E o que espelha essa debilidade são, precisamente, as fissuras que começam a fazer-se notar no monolítico bloco nacionalista radical.

domingo, 24 de outubro de 2010

Novo vice-presidente

Comecemos pela notícia mais relevante de toda a semana política espanhola e que terá repercussões na estratégia governamental de resposta ao fim da violência armada/terrorismo: a remodelação de governo levada a cabo há alguns dias. Não eram poucos os que davam o presidente espanhol como politicamente morto. No entanto, Zapatero, fazendo justiça à sua fama de político frio, "deixou-os pousar" e levou a cabo uma profunda alteração no seu gabinete. A principal inovação foi a ascensão de Alfredo Pérez Rubalcaba, ministro do Interior, a vice-presidente do governo. Esta promoção é especialmente relevante pelo papel que Rubalcaba, um militante socialista da velha guarda, tem tido no combate à ETA. Há mesmo quem diga que a chegada ao novo cargo tem uma relação directa com o momento de grande debilidade que vive a organização independentista basca.

Pedido de desculpas

Peço desculpas pelo blackout informativo dos últimos dias, mas não tenho tido muito tempo para comentar a enorme torrente informativa que vem do outro lado da fronteira. Os próximos posts vão tentarão pôr alguma ordem na casa.

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Mais um preso

A actividade "oficial" de Espanha e França prossegue, no âmbito do combate ao terrorismo da ETA. Se esta organização pensou que poderia rearmar-se às custas de um falso processo de paz, enganou-se rotundamente.
A ETA actual não pode ser encarada como um agente homogéneo com vontade claramente definida e isto gera uma aparência de irracionalidade nas suas acções: terá declarado um cessar-fogo, aparentemente na ilusão de se poder fortalecer? Mas não é mais do que óbvio que o Estado espanhol se encontra mais do que fortalecido nesta matéria e que não tem margem para qualquer cedência, dados os enganos em que tem caído? O que pretende, então, a ETA? Provavelmente nem ela sabe. Nem ele, nem nenhum dos homens que a compõem. Confusão típica de um fim apocalíptico? Quem sabe...

sábado, 9 de outubro de 2010

El País e governo

Esta é uma reportagem relacionada com o último post que aqui pus.
As movimentações dos presos da ETA são essenciais para descortinar alguma coisa a respeito do futuro próximo da organização. No entanto, faço um alerta. Podemos encarar o que é publicado no El País, no que diz respeito à luta anti-terrorista, de duas formas: como um trabalho que contém informações relevantes e inéditas, pela proximidade deste diário aos socialistas espanhóis, actualmente no governo; ou como uma mensagem que esse mesmo governo pretende fazer passar à sociedade e à envolvente da ETA, através de um órgão de comunicação que lhe é próximo. A bem da higiene informativa, espero que a primeira hipótese seja a mais provável.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Falsa trégua

Esta notícia pode querer dizer uma de duas coisas: ou a direita mediática espanhola está a lançar um ataque preventivo a futuras negociações; ou as profundas divisões que atravessam a ETA estão a vir ao de cima, com alguns membros da organização a tentar negociar com o governo espanhol, enquanto outros tentam radicalizar a luta e enveredar por uma nova onda de violência e homicídios. No caso de se estar a assistir a um aprofundar das divisões internas, é provável que o governo as tente aproveitar e que pondere benesses para os que abandonam a luta armada. Talvez seja neste quadro que devam ser entendidas a discreta aproximação de presos ao País Basco. Recorde-se que existe, em Espanha, uma política penitenciária de dispersão de condenados por terrorismo, que tem como objectivo afastar os presos da ETA do País Basco, colocando-os em prisões distantes de casa.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

ETA e FARC

A ligação entre a ETA e as FARC tem animado a imprensa espanhola. Num momento em que as notícias a respeito do cessar-fogo não abundam (o que pode ser bom sinal pela diminuição do nível de ruído), regressam as informações relativas aos laços internacionais da ETA.
Numa época em que os movimentos terroristas de matriz nacionalista-independentista estão em acentuada decadência, parece natural que as entidades que vão subsistindo tendam a entender-se umas com as outras.

domingo, 3 de outubro de 2010

PNV I

Na semana que está a começar, vamos analisar os principais actores do conflito basco. Começamos por destapar um pouco do que pretendemos fazer com uma menção ao Partido Nacionalista Basco (PNV), provavelmente o mais complexo e contraditório dos intervenientes em todo o processo. Parece mesmo quase certo que a coesão do PNV será posta em causa pelo cessar-fogo da ETA: face à ausência de diálogo oficial e de demarcação clara dos terrenos, a vertente mais soberanista do partido poderá cair na tentação de alinhar com o nacionalismo radical. Por sua vez, este movimento irá, naturalmente, encostar o sector moderado do partido a Madrid, como se viu com a aproximação ao PSOE e ao próprio Zapatero, na questão do Orçamento de Estado para 2011.
O actual momento basco é de grande riqueza política, dada a natureza do conflito, o elevado número de intervenientes e a natureza extremamente complexa de cada um destes.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A mediação tem as suas exigências

Só se afiguram duas hipóteses perante a atitude da ETA num processo que ela própria desencadeou:
- Ou está a tentar ganhar tempo e alguma margem de manobra para potenciais negociações oficiais;
- Ou está totalmente desligada da realidade e julga que o governo de Espanha se pode dar ao luxo de voltar a acreditar em quem já o enganou.
A difusa chefia da ETA tem cometido sistemáticos erros de avaliação em relação aos actores políticos espanhóis e agora parece estar a fazer o mesmo no que diz respeito à mediação internacional. O problema é que nenhum mediador internacional pode tratar da mesma forma o governo democrático e legítimo de um Estado e uma organização violenta que se negue a declarar um cessar-fogo definitivo e verificável. Não é possível negociar com armas em cima da mesa.
Se a ETA tiver uma vontade efectiva de levar o seu cessar-fogo a bom porto, deverá surgir um comunicado proximamente. Também será a um domingo?